Os filmes deste feriado foram indicados e emprestados. O primeiro deles, Rois e Reine [Reis e Rainhas], um francês com uma abordagem crua, porém delicada e sem exageros, de sentimentos e relacionamentos, tanto da ordem familiar como amorosa. Nele se evidencia a tênue linha que separa amor, paixão, ódio, interesses e, principalmente, loucura, assim como o momento em que há uma mistura generalizada de todos esses componentes naquilo que simplesmente chamamos de vida. Um dos grandes méritos do filme é que ele não julga e não coloca nenhuma pena sobre os personagens, o que torna tudo possivelmente ainda mais assustador se trazido à vida real. Qual o lugar oficial, ou oficializado, da loucura? Como escrever uma declaracão de ódio que, de tão apaixonada, torna-se tão linda como se fosse de amor?
Às vezes, de tão preocupados que estamos em não fazer mal aos outros, acabamos não nos dando conta de que nenhum mal pode ser pior do que aquele que fazemos a nós mesmos.
O outro filme, um taiwanês chamado Yi yi [As coisas simples da vida], eu já havia assistido há algum tempo no cinema e adorei vê-lo novamente. Bom filme para assistir no começo de ano. Bom filme para assistir no começo de uma nova etapa de vida. Bom filme para assistir a qualquer momento. Os orientais sempre me impressionam por sua capacidade de silêncio, conseguindo conter sentimentos e expressões de uma maneira bastante racional. Não é bem o caso deste filme que, como a tradução em português diz, surpreende muito mais pela maneira simples de lidar com as coisas da vida.
No filme acompanhamos a vida de uma família composta por um pai, uma mãe, uma avó, uma filha adolescente e um filho criança. Todas as etapas da vida contempladas de maneira harmoniosa em um mesmo filme. A cada nova fase surgem novas descobertas, experiências e questionamentos, mostrando que tudo sempre é transformação.
Talvez quem mais traga lições de simplicidade seja o jovem menino Yang-Yang, que tem consciência de seu pouco saber devido à sua juventude e que deseja saber muito para um dia poder contar aos outros tudo aquilo que sabe. Ele sempre tem perguntas para o seu pai, N.J., com que também troca algumas reflexões, como por exemplo quando se dá conta de que a gente só pode saber metade das coisas, pois nunca podemos olhar o outro lado delas. Também diz ao pai que ele nunca poderá saber o que o pai vê, porque o que ele vê não é o que o pai vê e o que o pai vê, ele não vê. Assim, N.J. lhe dá uma câmera fotográfica para que através dela um possa ver o que o outro também vê. Yang-Yang começa a fotografar as pessoas vistas de trás e, ao entregar uma de suas fotos ao tio que, sem saber, serviu de modelo e não entende a proposta da fotografia do sobrinho, explica dizendo que só quer ajudar, pois ninguém consegue se ver de costas e com suas fotografias isso se torna possível. Todas as cenas com o menino são muito ricas, principalmente aquelas em que desenvolve seu conhecimento de maneira empírica, desafiando a si próprio de maneira saudável e curiosa.
Já a vida de seus pais acaba sendo um contraponto a essa vivacidade, pois aos poucos eles vão se dando conta do vazio e falta de sentido que suas vidas têm. Uma escolha pode não ser para a vida toda, mas suas marcas sempre permanecerão em nossos corações. E no meio desses encantos e desencantos com a vida, a jovem adolescente que se apaixona pela primeira vez, pergunta a avó, que está em coma, por que o mundo não é como imaginamos que ele fosse. Quando ela fecha os olhos vê um mundo bem mais bonito.