Utilidade pública: descarte de óleo de cozinha

March 9th, 2010

Aqui em casa nós temos muita resistência a frituras, por causa do cheiro que infesta a casa e da melação que vai ficando na cozinha. Por este motivo, uma garrafa de óleo chega a durar uns seis meses. Mas um desejo incontrolável de comer pastel e, mais do que isso, fazer pastel, nos fez rever alguns valores. Compramos todos os ingredientes necessários para o preparo de um guisadinho bem temperadinho, tomamos coragem e começamos despejar o conteúdo amarelo dentro de uma panela – sim, panela, pois como tem paredes mais altas do que uma frigideira, evita respingos. Sem ter noção da quantidade adequada, liguei para a minha avó, que é minha consultora em assuntos de cozinha. Uns três dedos, ela disse, porque se o pastel encostar no fundo da panela, queima. Ficamos chocados com o rápido esvaziamento da garrafa. Depois, foi rechear os pastéis e esperar o óleo esquentar. No fim das contas, o trabalho foi mínimo e a sujeira também. E os pastéis ficaram deliciosos!

Agora vem a segunda parte da história… O que fazer com o óleo utilizado? No site do DMLU há uma série de dicas e, o mais importante, uma lista com 139 locais em Porto Alegre que recebem o descarte de óleo de cozinha. A lista é organizada pelo nome dos bairros, em ordem alfabética. Certamente deve haver um posto perto da casa de todo mundo, por isso, fica o pedido para que ninguém mais despeje óleo no sistema de esgoto e nem coloque no lixo. O óleo pode ser reaproveitado de diferentes maneiras e não custa nada colaborar!

Vem e Vê

March 7th, 2010

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Considerar a relação de um filme com a realidade sempre modifica os efeitos que o mesmo pode exercer sobre nós. Em alguns casos, torna-se impossível não escapar do filme para o mundo real. O resultado é um estado de perplexidade. Foi isso que eu pensei hoje, depois de assistir ao Vem e vê – primeiro filme bielorusso de que tenho conhecimento. O filme se passa em 1943 e trata sobre a invasão alemã na Bielorússia, de onde, vale dizer, veio parte da minha família.

A Festa de Babette

March 5th, 2010

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Dando sequência ao nosso plano de assistir aos clássicos da história do cinema, tivemos a honra de participar de um banquete muito especial. A Festa de Babette é um filme incrível, que me faz salivar o tempo todo. O prazer do paladar é explorado no filme de maneira quase erótica e vem acompanhado pelo peso do pecado e da culpa, sempre presentes no cotidiano de uma pequena sociedade conservadora situada no gélido interior da Dinamarca. A paixão que Babette, uma parisiense que encontra abrigo na casa de duas irmãs religiosas, tem pela arte de cozinhar é preservada ao longo de muitos anos, alimentados por uma papa resultante da mistura de cerveja e pão. Para sobreviver, a moça se adapta à vida de restrições, até o dia em que tem a oportunidade de mais uma vez cozinhar, revelando-se uma excepcional cozinheira francesa.

Fazer ou participar de um jantar com tantos pratos e tantas bebidas diferentes, seguindo uma ordem e respeitando combinações, passou a ser um objetivo nesta vida.

O segredo dos seus olhos

March 4th, 2010

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Eu andava cansada dos filmes com o Ricardo Darín, carinhosamente chamado por nós de “o ator de todos os filmes argentinos”, mas mesmo assim resolvi arriscar e assistir ao El secreto de sus ojos. Saí do cinema contente por ter assistido a um bom filme que, mais do que contar um história, trata sobre as dificuldades e desenvolvimento do processo criativo; das burocracias da vida em sociedade e suas consequentes injustiças. Há no filme uma colocação linda sobre o sentimento de paixão. Podemos mudar de cidade, de rosto, de nome, mas não podemos abandonar nossas paixões. Verdade. No final, um presente àqueles que têm fome de justiça e outro àqueles que se dedicam arduamente a uma obra.

Pacto

February 4th, 2010

Existe um monstro que me assombra e a ele preciso dar forma. Só assim, libertando-o, é que me deixará em paz, dando passagem ao caminho que surge. Para caçar é preciso primeiro criar.

Barato

January 28th, 2010

Um expresso está para quem não toma café, assim como uma taça de espumante está para quem não bebe.

O salto depois do começo

January 12th, 2010

Na Bravo! do mês de dezembro saiu uma matéria, sobre o começo de carreira nas diferentes áreas culturais, inclusive em Artes Plásticas. O texto não é muito aprofundado e nem traz a solução para nossas angústias, até mesmo porque não estamos em São Paulo, onde tudo acontece. Com isso, pergunto, como podemos melhorar a situação aqui no sul? A Desvenda foi o que mais movimentou o cenário no último ano. Tendo um outro perfil, a Subterrânea também se destaca nos eventos artísticos-culturais. A Bienal B também merece ser citada, especialmente a primeira edição, que levantou a poeira do pessoal em Porto Alegre. Diversas questões perturbam essa não certeza, esse não espaço e ao mesmo tempo, a necessidade de um generoso investimento para que alguma coisa aconteça por essas bandas.

Eu apoio a Cigarra

January 8th, 2010

A cigarra e a formiga, Gustave Doré

A cigarra e a formiga, Gustave Doré

Eu estava descendo a rua e na minha frente caminhavam um casal de avós e sua neta, que devia ter uns quatro anos. A menina perguntou aos avós se eles sabiam que a Cigarra não gostava de trabalhar. Com ar de surpresa, a avó repetiu a pergunta da neta. O avô, sorrindo contente por conhecer a história a qual ela se referia, tentou ir adiante perguntando sobre a Formiga e dizendo que a danada da Cigarra só queria saber de cantar. Meus passos apressados ultrapassaram o trio. Não ouvi o desenrolar da conversa, mas não é difícil imaginar como foi.

Segui pensando no que havia acabado de ouvir. Por que o trabalho da Cigarra não poderia ser cantar? Uma vez ouvi a história da Chapeuzinho Vermelho do ponto de vista do Lobo, que dizem por aí que era Mau. Talvez já esteja na hora de revisarmos esta história e contarmos que a Cigarra, na verdade, trabalhou o verão inteiro, tanto quanto a Formiga, e mesmo assim não recebeu nada em troca. Desta forma seria mais fácil compreender as dificuldades que quem opta por uma profissão economicamente não valorizada enfrenta.

Preconceitos como este encontrado na fábula de Esopo e valores conservadores presentes na sociedade em que vivemos, só contribuem para reforçar a desvalorização destes profissionais que optaram por não seguir o caminho seguro do socialmente aceito. Tenho convivido com esta angústia há bastante tempo e cada vez que reencontro um ex-colega do Instituto de Artes a conversa gira em torno da resistência e desistência. Ao concluir o curso, somos obrigados a estourar uma espécie de bolha e encarar a realidade, passando a questionar nossas escolhas e a ponderar suas consequências. Seria possível viver em mundo sem arte?

Essa aflição pode ter sido uma das responsáveis pela aproximação estreita entre os conceitos de arte e vida, presente na obra de diferentes artistas ao longo da história da arte. A ideia, que amplia a arte para o campo da vida, faz com que as duas se tornem uma coisa só. Beuys, Hundertwasser, Paulo Bruscky, Nan Goldin e Miranda July, são alguns exemplos.

Foto arte raio-x

January 6th, 2010

Nick Veasey

Nick Veasey é um fotógrafo britânico que trabalha com raio-x. O artista argumenta que vivemos em um mundo obcecado por imagens e que seu trabalho vai fundo nesta busca, ultrapassando as superfícies. Ele já explorou diversos objetos, dos menores e mais simples aos maiores e mais complexos, como um ônibus e um avião. O resultado é lindíssimo.

Por que o mundo não é como imaginamos que ele fosse?

January 5th, 2010

Os filmes deste feriado foram indicados e emprestados. O primeiro deles, Rois e Reine [Reis e Rainhas], um francês com uma abordagem crua, porém delicada e sem exageros, de sentimentos e relacionamentos, tanto da ordem familiar como amorosa. Nele se evidencia a tênue linha que separa amor, paixão, ódio, interesses e, principalmente, loucura, assim como o momento em que há uma mistura generalizada de todos esses componentes naquilo que simplesmente chamamos de vida. Um dos grandes méritos do filme é que ele não julga e não coloca nenhuma pena sobre os personagens, o que torna tudo possivelmente ainda mais assustador se trazido à vida real. Qual o lugar oficial, ou oficializado, da loucura? Como escrever uma declaracão de ódio que, de tão apaixonada, torna-se tão linda como se fosse de amor?

Às vezes, de tão preocupados que estamos em não fazer mal aos outros, acabamos não nos dando conta de que nenhum mal pode ser pior do que aquele que fazemos a nós mesmos.

O outro filme, um taiwanês chamado Yi yi [As coisas simples da vida], eu já havia assistido há algum tempo no cinema e adorei vê-lo novamente. Bom filme para assistir no começo de ano. Bom filme para assistir no começo de uma nova etapa de vida. Bom filme para assistir a qualquer momento. Os orientais sempre me impressionam por sua capacidade de silêncio, conseguindo conter sentimentos e expressões de uma maneira bastante racional. Não é bem o caso deste filme que, como a tradução em português diz, surpreende muito mais pela maneira simples de lidar com as coisas da vida.

No filme acompanhamos a vida de uma família composta por um pai, uma mãe, uma avó, uma filha adolescente e um filho criança. Todas as etapas da vida contempladas de maneira harmoniosa em um mesmo filme. A cada nova fase surgem novas descobertas, experiências e questionamentos, mostrando que tudo sempre é transformação.

Talvez quem mais traga lições de simplicidade seja o jovem menino Yang-Yang, que tem consciência de seu pouco saber devido à sua juventude e que deseja saber muito para um dia poder contar aos outros tudo aquilo que sabe. Ele sempre tem perguntas para o seu pai, N.J., com que também troca algumas reflexões, como por exemplo quando se dá conta de que a gente só pode saber metade das coisas, pois nunca podemos olhar o outro lado delas. Também diz ao pai que ele nunca poderá saber o que o pai vê, porque o que ele vê não é o que o pai vê e o que o pai vê, ele não vê. Assim, N.J. lhe dá uma câmera fotográfica para que através dela um possa ver o que o outro também vê. Yang-Yang começa a fotografar as pessoas vistas de trás e, ao entregar uma de suas fotos ao tio que, sem saber, serviu de modelo e não entende a proposta da fotografia do sobrinho, explica dizendo que só quer ajudar, pois ninguém consegue se ver de costas e com suas fotografias isso se torna possível. Todas as cenas com o menino são muito ricas, principalmente aquelas em que desenvolve seu conhecimento de maneira empírica, desafiando a si próprio de maneira saudável e curiosa.

Já a vida de seus pais acaba sendo um contraponto a essa vivacidade, pois aos poucos eles vão se dando conta do vazio e falta de sentido que suas vidas têm. Uma escolha pode não ser para a vida toda, mas suas marcas sempre permanecerão em nossos corações. E no meio desses encantos e desencantos com a vida, a jovem adolescente que se apaixona pela primeira vez, pergunta a avó, que está em coma, por que o mundo não é como imaginamos que ele fosse. Quando ela fecha os olhos vê um mundo bem mais bonito.